De volta para casa após ver a morte de muito perto. Uma semana após sobreviver ao pouso forçado da aeronave C-98 Caravan, da Força Aérea Brasileira (FAB), no Rio Ituí, em plena Amazônia, o 2° tenente da Aeronáutica, piloto potiguar José Ananias da Silva Pereira, de 26 anos, desembarcou na manhã de ontem em Natal. O acidente aéreo deixou dois mortos dentre os 11 tripulantes da aeronave - o técnico da Funasa João Abreu e o suboficial Marcelo dos Santos Dias. Além de Ananias, o 1º tenente Carlos Wagner Ottone Veiga, que é casado com uma potiguar e assumiu os controles da aeronave durante o pouso, deve chegar a Natal amanhã. A sobrevivente Maria das Dores também seria potiguar, segundo o tenente.
![]() José Ananias chegou ontem a Natal e foi recebido pela família na capital potiguar em clima de festa e emoção |
Em um relato dramático sobre o drama vivido na selva, ele diz que chegou a se afogar após o pouso. "A correnteza estava bastante forte e eu fui arrastado. O rio era muito barrento e tinha cerca de oito metros de profundidade. Assim que o avião pousou na água, o vidro estilhaçoue começamos a afundar. Fui arrastado por cerca de 40 metros. Eu nadava, mas o equipamento era pesado e para cada metro adiante, eu era arrastado três ou quatro para trás. Engoli água, perdi as forças dos braços e das pernas e quando recobrei a consciência consegui me segurar em um galho e sair da água". Assim que chegou em terra firme na selva e retirou o macacão, José Ananias recebeu um verdadeiro "abraço" de um enxame de caramapás - mosquitos amazônicos. Essas são praticamente as únicas marcas deixadas pelo acidento do qual escapou ileso, além da marca deixada pelo cinto de segurança do avião.
Ontem, do aeroporto Augusto Severo, aonde chegou às 11h, José Ananias seguiu para a casa de sua avó onde foi bastante festejado por vários de seus familiares, que viveram uma semana plena de expectativas e ansiedade sobre o reencontro com o piloto. Já acolhido, José Ananias falou ao Diário de Natal sobre a experiência vivenciada na selva amazônica. Ele não recebeu autorização da Aeronáutica para falar sobre causas possíveis do acidente.
Rezando juntos
Após o pouso, José Ananias pediu que as pessoas rezassem se possível. "Sempre acreditei em Deus, tenho muita fé e ele me ajudou com muita força nesses momentos". O avião estava a nove mil pés de altura, cerca de 3 mil metros. Embora o pouso tenha sido controlado, a o piloto estima que a velocidade aproximada tenha sido de 160 quilômetros por hora. O grande impacto fez com que o avião afundasse completamente em pouco menos de 30 segundos.
"O suboficial Dias foi um verdadeiro herói. Estou com um sentimento de perda muito grande, mas também de alegria por nove vidas terem sido salvas. O lema do grupamento dele era 'para que outros possam viver'. Ele deu a vida por isso", afirma José Ananias ao falar sobre o companheiro de farda que conseguiu retirar outros passageiros do avião, mas terminou se afogando. O técnico da Funasa João Abreu não conseguiu sair da aeronave e também se afogou. Após o sufoco, os sobreviventes reuniram-se na margem ao lado do local da queda e rezaram novamente. "Agradecemos por estamos vivos e desejando que o Dias e o Abreu estivessem em um lugar melhor. Daí em diante foi espírito de sobrevivência na selva. O principal é a vontade de viver e você tem que ter a certeza de que alguém está lhe procurando".
Um fato curioso é que apesar do avião ter afundado rapidamente, um kit de sobrevivência escapou. "Encontramos uma bolsa laranja presa num galho com dez rações operacionais e material para fazer fogo".
Soldado na guerra
"O tempo inteiro eu sentia as orações da minha família. Em Manaus, eu via os colegas recebendo os familiares e esperava a minha vez. Estou muito feliz e grato com essa recepção, com a torcida e as orações de todos. Estou sentindo muita paz aqui em Natal. Me sinto como um soldado que foi para a guerra e volta com a consciência tranquila do dever cumprido".
João Ananias recebeu uma carta do presidente Lula expressando sua felicidade pelo resgate dos sobreviventes e tristeza pelas perdas sofridas. "É o que sinto, mas sinto também muito orgulho de ser da Aeronáutica. Salvamos nove vidas em um acidente aéreo, o que é muito significativo". Sobre os planos futuros: "Por mim, volto a voar na próxima semana. É o meu trabalho".
Decisão rápida
O piloto conta que a aeronave realizava o voo entre Cruzeiro do Sul (AC) e Tabatinga (AM) quando foi detectada uma perda de potência no motor. "Precisamos tomar uma decisão rápida. Estávamos há 45 minutos no ar e não havia condições de voltar para Tabatinga ou de chegar a Cruzeiro do Sul. Decidimos então fazer um pouso de emergência. Tudo não levou mais que um minuto".
José Ananias diz que os passageiros foram comunicados da decisão, mas conseguiram manter a calma. Entre a decisão e o pouso na água restaram apenas cinco minutos de planejamento. "Nós conseguimos realizar todos os procedimentos de emergência que estavam previstos. Manter uma calma relativa foi muito importante".
Noite de tensão
"Passamos a noite nos perguntando se alguém já tinha se dado conta que tínhamos feito um pouso de emergência e estava nos procurando. Mal sabíamos que haviam nove aeronaves e 130 pessoas envolvidas nas buscas. Às 8h de sexta-feira vimos o primeiro sobrevôo do Esquadrão Pelicano, de Campo Grande. Eles não nos viram porque as árvores são bastante altas e a fumaça da fogueira fica abafada. Acendemos mais quatro fogueiras e por voltas das 10h fomos localizados e um helicóptero veio nos resgatar. Foi a maior felicidade da minha vida".
Ele conta que "era uma região intocada pelo homem. Passamos frio e ficamos com bastante receio de encontrar algum bicho, pois ali tem onças, jacarés e mosquitos".
Fonte:Diario De Natal
Ontem, do aeroporto Augusto Severo, aonde chegou às 11h, José Ananias seguiu para a casa de sua avó onde foi bastante festejado por vários de seus familiares, que viveram uma semana plena de expectativas e ansiedade sobre o reencontro com o piloto. Já acolhido, José Ananias falou ao Diário de Natal sobre a experiência vivenciada na selva amazônica. Ele não recebeu autorização da Aeronáutica para falar sobre causas possíveis do acidente.
Rezando juntos
Após o pouso, José Ananias pediu que as pessoas rezassem se possível. "Sempre acreditei em Deus, tenho muita fé e ele me ajudou com muita força nesses momentos". O avião estava a nove mil pés de altura, cerca de 3 mil metros. Embora o pouso tenha sido controlado, a o piloto estima que a velocidade aproximada tenha sido de 160 quilômetros por hora. O grande impacto fez com que o avião afundasse completamente em pouco menos de 30 segundos.
"O suboficial Dias foi um verdadeiro herói. Estou com um sentimento de perda muito grande, mas também de alegria por nove vidas terem sido salvas. O lema do grupamento dele era 'para que outros possam viver'. Ele deu a vida por isso", afirma José Ananias ao falar sobre o companheiro de farda que conseguiu retirar outros passageiros do avião, mas terminou se afogando. O técnico da Funasa João Abreu não conseguiu sair da aeronave e também se afogou. Após o sufoco, os sobreviventes reuniram-se na margem ao lado do local da queda e rezaram novamente. "Agradecemos por estamos vivos e desejando que o Dias e o Abreu estivessem em um lugar melhor. Daí em diante foi espírito de sobrevivência na selva. O principal é a vontade de viver e você tem que ter a certeza de que alguém está lhe procurando".
Um fato curioso é que apesar do avião ter afundado rapidamente, um kit de sobrevivência escapou. "Encontramos uma bolsa laranja presa num galho com dez rações operacionais e material para fazer fogo".
Soldado na guerra
"O tempo inteiro eu sentia as orações da minha família. Em Manaus, eu via os colegas recebendo os familiares e esperava a minha vez. Estou muito feliz e grato com essa recepção, com a torcida e as orações de todos. Estou sentindo muita paz aqui em Natal. Me sinto como um soldado que foi para a guerra e volta com a consciência tranquila do dever cumprido".
João Ananias recebeu uma carta do presidente Lula expressando sua felicidade pelo resgate dos sobreviventes e tristeza pelas perdas sofridas. "É o que sinto, mas sinto também muito orgulho de ser da Aeronáutica. Salvamos nove vidas em um acidente aéreo, o que é muito significativo". Sobre os planos futuros: "Por mim, volto a voar na próxima semana. É o meu trabalho".
Decisão rápida
O piloto conta que a aeronave realizava o voo entre Cruzeiro do Sul (AC) e Tabatinga (AM) quando foi detectada uma perda de potência no motor. "Precisamos tomar uma decisão rápida. Estávamos há 45 minutos no ar e não havia condições de voltar para Tabatinga ou de chegar a Cruzeiro do Sul. Decidimos então fazer um pouso de emergência. Tudo não levou mais que um minuto".
José Ananias diz que os passageiros foram comunicados da decisão, mas conseguiram manter a calma. Entre a decisão e o pouso na água restaram apenas cinco minutos de planejamento. "Nós conseguimos realizar todos os procedimentos de emergência que estavam previstos. Manter uma calma relativa foi muito importante".
Noite de tensão
"Passamos a noite nos perguntando se alguém já tinha se dado conta que tínhamos feito um pouso de emergência e estava nos procurando. Mal sabíamos que haviam nove aeronaves e 130 pessoas envolvidas nas buscas. Às 8h de sexta-feira vimos o primeiro sobrevôo do Esquadrão Pelicano, de Campo Grande. Eles não nos viram porque as árvores são bastante altas e a fumaça da fogueira fica abafada. Acendemos mais quatro fogueiras e por voltas das 10h fomos localizados e um helicóptero veio nos resgatar. Foi a maior felicidade da minha vida".
Ele conta que "era uma região intocada pelo homem. Passamos frio e ficamos com bastante receio de encontrar algum bicho, pois ali tem onças, jacarés e mosquitos".
Fonte:Diario De Natal
